quarta-feira, 24 de julho de 2013

Leiam o Capítulo "MINUANO" do novo livro de João Carlos Berka

 
MINUANO

  
Os primeiros raios de sol tentavam, timidamente, atravessar a forte bruma da manhã gelada. A neblina espessa que cobria o pampa, o pasto molhado escorregadio e o minuano vergando os eucalipteiros, indicavam mais um dia de inverno, daqueles que faziam doer os ossos...

Dentro do pequeno barraco, uma luz bruxuleante, e a fumaça na chaminé, indicavam que já havia alguém acordado. Perto do barraco, das águas do pequeno açude, saia um vapor que chegava à altura dos juncus das margens. A friagem e a falta de oxigênio, faziam carás, traíras e jundiás, virem à tona em busca de respirar.

De repente, o silencio da manhã é quebrado por um relinchado do outro lado do açude.  A porta do barraco se abre, e um tipo estranho sai para fora. Está completamente nu. Cabelos longos até os ombros, barba cerrada quase que até o peito. Somente o rosto bronzeado. O corpo alvo, indicava alguém que dedicava-se à lida campeira naqueles pagos.

Encaminhou-se para o açude e fazendo pouco caso do vento e da água gelada, mergulhou, para,  em seguida, junto à margem, ensaboar-se com sabão-em-barra caseiro. Suas melenas molhadas revelavam uma falha de uns cinco centímetros, na parte posterior da cabeça. Nas costas, na altura do rim esquerdo uma feia cicatriz, de uns quinze centímetros.

O homem tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura, era dono de um corpo enxuto e musculoso. Seu caminhar revelava uma certa dificuldade em flexionar naturalmente o joelho direito. Olhos, cabelos e barbas castanhos escuros.

Ao terminar sua higiene, deparou-se com um bagual preto, lhe fitando atentamente, de perto da entrada do barraco. Voltou-se e mergulhou novamente. Saiu da água, e dirigindo-se para o barraco, fez um carinho na crina do animal e entrou. No pasto próximo, alarido de quero-queros : vinha mais chuva...

Dentro do barraco, enfumaçado, o homem, apanhou um pano velho, de cor indefinida, um arremedo de toalha e enxugou-se. Em seguida paramentou-se : ceroulas, camiseta de mangas grossa, camisa de flanela quadriculada, bombacha escura, botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão e guaiaca pretos com arrebites prateados, chilenas nas botas. 

Assim que estava vestido, tirou do trempe, a chaleira fervente e abasteceu a cuia.
Então de uma pequena prateleira rústica, feita de taboas e tijolos, apanhou uma garrafa de cana, que estava pela metade e bebendo no gargalo, alternava com a bomba do chimarrão. Duas broas velhas e endurecidas completaram seu desjejum.

O rancho tinha um catre, com cobertas de penas, uma pequena mesa, um fogão à lenha que somente era utilizado para aquecer o ambiente nas noites geladas do pampa e uma prateleira. Completava o mobiliário um banquinho redondo, feito de uma fatia de tronco de madeira de lei com três pernas. Nas paredes, alguns pelegos de ovelha e no chão, de pedras, um couro de rês.

Após comer e beber, ele pegou debaixo do catre, um calendário e um envelope. Abriu este último leu por alguns minutos, consultou o calendário mais uma vez : todos os dias eram sinalizados com um x, e a data dalí a três dias, estava rodeada por um círculo. Apanhou, a lamparina e um galão de querosene e levou-os para fora. Apanhou os arreios que estavam pendurados na parede e saiu. 

Escovou o cavalo, passou um pano úmido com um pouco de querosene na cara e orelhas do animal e encilhou-o. Apanhou uma pequena bolsa, colocou o punhal na cintura e vestiu o poncho. Rodeou o barraco, derramando o querosene nas paredes e em seguida prendeu fogo. Ficou até quase tudo estar reduzido a escombros e cinzas, então montou o lindo cavalo e saiu pampa a fora rumo a estrada vicinal que separava as propriedades. Passou rente aos eucalipteiros e olhando a esquerda viu ao longe a casa dos proprietários da estância. E, silencioso e pensativo, foi-se numa marcha batida, embora daquele lugar que fora sua casa nos últimos seis meses...

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Há dois anos que a estância fora desativada. Antes era um dos mais importantes criatórios de matrizes e reprodutores de ovinos Polwarth, ou como são chamados no Rio Grande do Sul : Ideal.  Animais rústicos e prolíficos, oferecendo 70 % de lã de boa qualidade e 30% de carne, têm a vantagem ainda de produzir cordeiros precoces.
Filomeno Baldissero era dono da Cabaña Bibiana. Viúvo, sessentão, casou com uma guria de vinte e cinco anos, de Pelotas. Diziam as más línguas que Izabel, tinha mais kilometragem que táxi de Porto Alegre. Santa Vitória do Palmar, onde estava localizada a estância, é uma cidade pequena. Cheia de cochichos e fofocas.

Um dia Filomento, resolveu apurar o que havia de verdadeiro. Pediu ao delegado da cidade que dois brigadianos o acompanhassem pois quando estava saindo da estância para ir até Montevidéu, viu um carro suspeito na estrada que levava à sua propriedade. Ao chegar na estância, acompanhado dos policiais, entrou na casa, encontrando sua mulher na cama com o capataz. No meio do tumulto, sacou de um revolver, e na frente dos atarantados brigadianos matou a mulher e o capataz! ...

Estes, imediatamente mandaram que ele fosse embora, para que tentassem livrá-lo das conseqüências de seu desatino. Filomeno Baldissero, passou duas semanas fora, e o caso foi arquivado como latrocínio. Dois meses depois, Filomento estava indo ao Chuy para jogar no cassino, quando teve um infarto dirigindo. Teve morte instantânea.
 Seu filho, do primeiro casamento, era advogado em Porto Alegre. Não se interessou pelo negócio do pai, pondo a propriedade a venda. Pelo preço que pedia, não encontraria comprador facilmente. Assim, como não precisava de dinheiro, indenizou os empregados e desativou a estância. Atendendo a um pedido de Juvenal, um bolicheiro do lado uruguaio, permitiu que um peão ficasse morando na estância. Mais tarde soube que o indivíduo não utilizava as instalações da casa maior, residindo num rancho no fundo da propriedade, junto a um açude.

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O peão chegou à porteira, apeou e depois de picar o fumo de corda, enrolou um cigarro de palha, que com prazer tragava enquanto se distanciava da estância, rumo à rodovia que levava ao perímetro urbano de Santa Vitória do Palmar. Na cidadezinha, entrou num bar junto a um posto de gasolina às margens da rodovia, pediu uma cachaça misturada com capilé e dois pastéis. Em seguida rumou na mesma marcha batida para Chuí.  Era metade da tarde quando chegou a cidade-fronteira. Atravessou a avenida que servia de marco entre Brasil e Uruguay e foi visitar seu velho amigo Juvenal, que lhe tinha arrumado pousada na estância. 

Abraçou o amigo e fez-lhe uma surpresa: deu-lhe o bagual preto, com todos os arreios, de presente. Juvenal ficou emocionado. Duas horas depois, foi para o posto da Polícia Federal e da Receita, aguardar o ônibus da Onda que vinha de Montevidéu e lhe levaria para Porto Alegre. Ficou debaixo dos eucaliptos que rodavam o Hotel e Churrascaria Bertelli, até a chegada do ônibus. Já sentado, ficou ruminando com seus botões, até que pelas imediações da Reserva do Taim, adormeceu, acordando somente na rodoviária de Porto Alegre.

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Na rodoviária foi direto para a drogaria, onde junto ao caixa,  identificou-se com uma fotografia de um amigo comum, e recebeu um chave do guarda-volumes. Retirou uma mala de porte médio, de couro, antiga.

Com o poncho numa mão e a mala outra, rumou, caminhando, para o Hotel Praça da Matriz. Um prédio histórico, construído em 1846. Ficava ao lado do Predio do Tribunal de Justiça, próximo ao Teatro São Pedro e do outro lado da praça que ficava em frente ao Palácio Piratini e a Catedral. Hospedou-se no hotelzinho. Ao chegar ao quarto, abriu a mala, retirando roupas limpas, também tradicionais, e um envelope grande com documentos e dinheiro vivo : reais e dólares. O conjunto de documentos era composto de passaporte, carteira de identidade e dois cartões de crédito. Tratou de descansar até o dia seguinte. Como não sentia fome, somente na manhã seguinte foi até a Borges de Medeiros fazer um lanche. Depois voltou à praça onde estava hospedado, e ficou num banco do jardim, observando a instalação do palanque para as autoridades que estava sendo erguido frente ao palácio do governo. Ficou vendo a decoração e as pessoas passarem. No dia seguinte haveria festa!

O governador, que fora ministro, quando do escândalo do Mensalão, propôs “refundar o PT”. Ao assumir o governo do estado, viu que apesar de ter sido eleito com expressiva votação, não tinha o voto dos homens do campo, do agrobusiness, e das cidades do interior. Sua votação maior fora na capital e nos bairros populares das cidades de médio porte. Assim, inventou” refundar o Rio Grande do Sul “, o que além de ser uma jogada de marketing, também possibilitava ao governo Federal, despejar fortunas no estado para consolidar seu poder numa região considerada estratégica para o partido. Foi lançada uma campanha similar à antiga “ O Sul é o meu País”, mexendo com os brios gaúchos, lançando um mutirão estadual para revitalização da economia, da cultura e lançar mundialmente a marca “  * Fabricado pelos gaúchos – RGS – BRAZIL “ . 

FIERGS, Universidades, CTGs, Prefeituras, Associações Comerciais e Industriais, Sindicatos, Igrejas, Mídia, Entidades Assistenciais, Maçonaria, Clubes de Serviço, etc, todos foram convidados a reeguer o Rio Grande do Sul. No dia seguinte, o governador, lançaria a Campanha, oficialmente, e haveriam festejos por todo o estado. Principalmente, na Capital, Porto Alegre, onde haveria um grande desfile cívico-militar-tradicionalista. Cavalhadas de todo estado estavam dirigindo-se pelas diversas rodovias de acesso a capital. No Guaíba haveriam várias festividades, pois um dos itens do processo seria a recuperação e revitalização do porto que margeia a capital gaúcha. Seria lançada a pedra fundamental da nova rodoviária e a Infraero anunciaria o novo Aeroporto Internacional. Enfim, uma grande festa...
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O peão, no dia seguinte, bem cedo, quando a praça estava tendo os últimos arremates para a festa, saiu do hotelzinho, foi até a rua Duque de Caxias e lanchou. Depois, pilchado, como centenas, pelas ruas, dirigiu-se calmamente à praça. Foi até bem perto do palanque e voltou para a calçada do prédio quase em frente à Catedral. Chegando à Portaria, tirou uma chave do bolso, abriu e dirigiu-se ao elevador. Não havia ninguém na portaria.

Saltou no décimo quinto andar, um antes do terraço. Dirigiu-se ao apartamento 153, e abriu a porta com outra chave. Entrou, tirou o poncho, colocando-o sobre um sofá numa espécie de saleta/hall, e circulou pelo apartamento vazio. Olhou tudo em volta e dirigiu-se à cozinha, onde serviu-se de um grande copo de água de um filtro instalado junto à pia. As persianas estavam baixadas nos quartos e na sala que ficava defronte à praça. Parecia que estava buscando algo. Não tinha pressa. Deslocava-se devagar. Sentou numa poltrona e tirou as botas. Caminhava suavemente como um gato. Sem ruídos. 

Até que encontrou : junto a janela de um pequeno escritório, também de frente para a praça, um tripé. Sobre ele, um rifle russo Dragunov, cal. 7,62X54 mm, munido de silenciador, telêmetro a laser e junto a um computador balístico, um SCS – Sniper Coordination System, da israelense ELBIT.

Vistoriou todo o armamento e munição atentamente e com presteza profissional.
Depois, ligou o computador e o equipamento da Elbit, estabelecendo comunicação. Colocou os auriculares e comunicou : - Estou pronto! ...

Dos fones de ouvido veio a ordem : - Ok. Aguarde as instruções e o comando! ...
Quando a banda da Brigada Militar iniciou, ele que estava deitado num sofá da sala, de olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, dirigiu-se para seu posto.

Pela luneta observava a chegada das autoridades e convidados ao palanque. A multidão comprimia-se na praça e adjacências. Ao longo ouvia-se ruídos da cavalhada que preparava-se para o desfile.  

O frio estava forte e uma névoa fina molhava tudo e todos. De onde o peão estava, atrás da persiana tudo via e não era visto. O cano da arma estava a 15 cm do vidro, que agora foi aberto, permitindo uma aragem gostosa dentro do apartamento fechado, com o ar viciado. A banda furiosa, foguetório. A multidão atendeu o pedido do governo, a grande maioria dos espectadores, crianças, adultos e idosos, pilchados. Bandeiras do Rio Grande por todo lado. Muita gente de cuia e garrafa térmica nas mãos.
De repente os autofalantes da praça anunciaram a presença do Governador e de vários ministros que vieram de Brasília! ...

O peão a postos, auriculares postos, equipamentos ligados, e ele totalmente imóvel...
Três minutos depois, o mestre de cerimônia dava início a solenidade com o canto do Hino Nacional. Na sequência, a fala do governador dos gaúchos...
O governador saudou as autoridades presentes, o público e lançou o brado que foi entusiasticamente respondido pela multidão, com aplausos e foguetes : “Viva o Rio Grande do Sul, Viva aos Gaúchos”! ...

Então, o peão escutou dentro de sua cabeça: - “Agora!”...
O único movimento foi do dedo sobre o gatilho. Ruído nenhum...
O Coronel Fraga, ajudante de Ordens do governador, achou que o mesmo tivera uma indisposição. Segurou-lhe enquanto ele caia lentamente. De boca e olhos abertos parecia estar tendo um AVC, ou um infarto. Gritou para que todos dessem espaço e bradou por um médico. Havia um no palanque. Ao examinar o governador caído, observou que sangue escorria lentamente por suas narinas e boca... Sem pulso. O governador estava morto!...

O coronel Fraga aturdido, observou um furo no ouvido direito. Ao virar a cabeça da vítima, viu uma enorme saliência no crâneo, como se algo tivesse explodido internamente mas não chegasse a romper os ossos. Tumulto geral! ...
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O peão, observava pela luneta. Calmamente desligou os equipamentos, calçou as botas e saiu. Sem nenhuma preocupação...  A equipe de limpeza estava chegando.

Dirigiu-se ao Hotel, a cinqüenta metros dalí, ingressou por uma recepção abandonada, o que o obrigou a pegar sua chave no escaninho e dirigiu-se para o quarto.

Tirou a roupa, abriu uma garra de vinho que tinha comprado no dia anterior e serviu-se no copo que estava sobre a pia. Apanhou sua sacola, tirando de dentro da mesma uma máquina de cortar cabelos e barba elétrica, e começou a mudar seu visual. Minutos depois, diante da garrafa de vinho vazia e diante do espelho estava irreconhecível. Tinha a aparência das fotos dos documentos que lhe foram deixados.. Juntou os cabelos, limpou bem a pia e colocando sua indumentária gaúcha juntamente com a garrafa, os cabelos na bolsa, vestiu-se com jeans e camisa grossa de manga comprida, botas de cano curto e casaco de couro. 

Saiu do hotel sem ser percebido. O porteiro estava na calçada e vendo-o de relance, não o reconheceu. Aparentava 20 anos mais jovem!

Caminhou algumas quadras e ao passar por uma lixeira, dissimuladamente jogou fora a bolsa e tomou um táxi junto ao Mercado Público Municipal. Deu como destino o aeroporto Salgado Filho. Lá chegando, foi até uma lojinha, comprou duas camisas, uma calça e uma bolsa de couro, de um grife cara. Lanchou, comprou revistas e o “Correio do Povo”.

 Duas horas depois fazia o chek-in, na LAN-CHILE. Destino : Santiago do Chile !...
Mais uma hora e a bordo, recostou-se numa poltrona, da primeira classe e adormeceu como um bebê ! ...



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